Por Israel Augusto – Jornal do Rap

No dia 31 de janeiro, Rincon Sapiência lançou o videoclipe da música “Onda, Sabor e Cor”. A faixa integra o segundo álbum do cantor, “Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps”, lançado no último mês de novembro.

Gravado em Cabo Verde, o trabalho expressa a musicalidade da faixa, que traz uma atmosfera de verão e exalta o legado da cultura africana ancestral.

O videoclipe foi gravado durante a passagem do artista pelo país, em abril de 2019, e traz um caráter documental da experiência vivida na viagem. Ao mesmo tempo, revela uma linguagem poética, com imagens aéreas da ilha paradisíaca, somadas a momentos de interação com a população local e do artista se banhando nas águas do mar cabo-verdiano. Também se destacam os momentos de imersão na cultura local, através da música, da moda e das trocas com os habitantes do país, conjunto que compõe uma coleção de memórias do encontro do artista com suas raízes ancestrais.

A direção e a fotografia são assinadas por Lubaconstrucktor, alter-ego do DJ Mista Luba, que acompanha Rincon nos palcos há 17 anos, período em que também documentou diversos momentos da carreira do artista. “Eu quis trazer essa linguagem de documentário, retratando a realidade do lugar em que estávamos e da viagem em si. Nós já temos uma sintonia musical, que se estende ao audiovisual, então saímos com a câmera na mão e as ideias foram surgindo de maneira natural. Isso ficou bem evidente no clipe, que contou o com o apoio da Porqueeu Filmes na finalização. Foi tudo gravado na “guerrilha”, assim como outros clipes que nós fizemos juntos”, relata o diretor.

Além do clipe em si, a campanha de lançamento contemplará ainda mais dois conteúdos exclusivos que também foram fruto da viagem, que serão lançados posteriormente no canal do YouTube do artista. O primeiro, uma entrevista sobre a música cabo-verdiana com Gil Cabral Moreira, professor da cultura nacional, músico e colecionador de discos, detentor de um rico acervo que contempla a história musical do país. O segundo, um minidocumentário da viagem que aborda a vivência da dupla Rincon e Lubaconstruktor durante a saga em Cabo Verde, desde o embarque no Brasil, passando pelos passeios, entrevistas para os veículos de comunicação locais e o show no Kriol Jazz Festival.

Rincon Sapiência lança o seu segundo álbum de carreira, intitulado “Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps”. No novo disco, o artista viaja pelos mais diversos ritmos, norteado pela musicalidade de vertentes da música pop contemporânea africana. Com instrumentais dançantes e divertidos, uma das marcas de sua nova fase, o disco é o primeiro lançado pelo seu selo próprio, o MGoma, e disponibilizado em todas as plataformas de streaming e no YouTube.

O álbum conta com as participações de Mano Brown, Lellê, Rael, Gaab, do grupo ÀTTØØXXÁ, Duquesa e do coletivo de Mc’s Audácia, integrado por ele. O novo trabalho expõe a evolução de Rincon como artista e produtor musical, que assina toda a produção e direção do trabalho, no qual se desprende da veia clássica predominante no multipremiado Galanga Livre (2017), seu disco de estreia.

Em “Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps”, Rincon bebe na fonte de estilos africanos mais variados, desde o afrobeat e o afrohouse, até o dundunba, ritmo originário da Guiné e divulgado ao redor do mundo pelo mestre djembefolá Famoudou Konatè. Abusando da psicodelia e com uma pegada menos orgânica, no disco também se destaca o diálogo com ritmos originários das periferias, como o pagodão baiano e o funk brasileiro – desde o Mandela até o 150 bpm – e indo até o grime inglês.

Permitindo-se novas experimentações musicais, Manicongo apresenta ao público o seu mundo, circundado por conflitos existenciais e amorosos. Mantendo a sua já conhecida leitura apurada da realidade que o cerca – ou que o liberta – o artista adota a proposta de celebração como uma constante no discurso. O esmero no uso dos graves traz ao trabalho uma sonoridade agradável e que convida a dançar. Destaque para os timbres 808 e drops certeiros, somados a refrões marcantes, além da onipresença, às vezes sutil e outras vezes marcante, do trap.

No disco, Rincon também estreita os laços com beatmakers da nova geração, como o guineense radicado em Portugal MazBeatz e o brasileiro Esil Beats, valorizando artistas ainda pouco conhecidos no mainstream. Os arranjos também se destacam pela riqueza e pela originalidade, valendo-se de instrumentos pouco convencionais no rap como o djembê, berimbau, marimba e metais.

A isso, somam-se arranjos de outros músicos, entre eles guitarra de Robson Heloyn, teclado de Kiko de Sousa, percussão de Nunah Oliveira e Amanda Telles, violão de Breno Laureano e scratches de DJ Mista Luba, além das vozes de Nanny Soul, d’Oliveira e Marissol Mwaba – que também gravou arranjos de baixo. Mixado e masterizado por César Pierri, o resultado desse conjunto é um álbum que convida os ouvintes à dança, ao mesmo tempo que reforça a elegância das composições, que ao longo dos anos tornou-se uma marca registrada de Rincon Sapiência.